Indústria quer mais crédito para acelerar investimentos

Setor, que vem perdendo participação no PIB, reclama da demora do governo para reduzir juros e pede acesso a fontes de recursos para incrementar produção, com três anos de baixa. Indústria de embalagens: a participação das fábricas brasileiras na economia caiu de 18% em 2004 para 9% em 2015. Após três anos de resultados negativos, a indústria brasileira virou 2017 com crescimento positivo de 0,2%.




04/01/2018 - São Paulo – Após três anos de resultados negativos, a indústria brasileira virou 2017 com crescimento positivo de 0,2%. O resultado é pequeno e ainda insuficiente para melhorar a participação do setor industrial no Produto Interno Bruto (PIB). O indicador chegou a 21%, mas já foi de 26% em 2012. Apesar do resultado modesto, a indústria de transformação vem apresentando números mais sólidos e deve fechar o ano com alta de 1,2%..


Há situações mais preocupantes. Segundo a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o setor de manufatura, a parte mais nobre do segmento produtivo, vem perdendo participação no PIB ao longo dos últimos anos. Sua participação desceu de 18% em 2004 para 9% em 2015. Em 2018, deve chegar a 11,1%, o percentual mais baixo em 65 anos.


Embora os números sejam modestos, 2018 deve apresentar um cenário de recuperação mais consistente, esperam entidades e empresários, com menor endividamento das famílias, aumento do crédito e, consequentemente, maior consumo e produção. Segundo análise da Fiesp, a economia deve ganhar força também com as condições mais favoráveis do mercado externo, a melhora do emprego (2017 fechou com mais de 12 milhões de desempregados) e da massa salarial.


As previsões positivas, de acordo com a Fiesp, têm respaldo nos resultados da economia, que apresentou três trimestres seguidos de crescimento do PIB. “É um sinal evidente de recuperação, sustentada pelo consumo”, diz José Ricardo Roriz, diretor do departamento de Competitividade da Fiesp.


Roriz lembra ainda que a prioridade da indústria em 2018 é dinamizar o acesso ao crédito, porque as empresas enfrentam barreiras nessa área. Ele também reivindica taxas de juros mais competitivas e que incentivem o investimento em geração de emprego. “Hoje é melhor deixar o dinheiro no banco rendendo do que investir”, afirma Roriz.


Para a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a atividade econômica deve se intensificar ao longo de 2018, com menos oscilações e numa trajetória mais clara de crescimento. “Nesse cenário, estimamos um crescimento de 2,6% do PIB para o ano que vem, com participação não só do consumo, mas também do investimento”, disse a entidade, salientando que, “do lado da oferta, o crescimento será mais uniforme do que o observado em 2017, com a contribuição positiva da indústria, agropecuária e serviços”.


O presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), José Velloso, também concorda com a melhora da economia brasileira em 2017, e a continuidade dos números positivos em 2018, mas espera que o governo resolva alguns problemas que amarram o crescimento do país. “O Brasil controlou a inflação, reduziu os juros, está controlando os gastos e buscando um superávit fiscal” diz ele.


Até aí, tudo bem. No entanto, Velloso considera que houve um exagero na política de juros altos, que acabou aumentando o desemprego. “Poderíamos ter poupado pelo menos 1,5 milhão de empregos se a dose do remédio (juros) não fosse excessiva”, avalia o presidente-executivo da Abimaq, lembrando que a redução dos juros não acompanhou a queda da inflação, o que deixou as empresas em dificuldade até outubro, quando as taxas começaram a cair.


Embora ainda existam muitos problemas para serem resolvidos, em especial a volta dos investimentos e do crédito de longo prazo, Velloso estima que o PIB brasileiro deverá crescer em torno de 5% em 2018, percentual bem acima dos 3% previstos pelo governo. Para o presidente-executivo da Abimaq, investimento deve ser a palavra de ordem da equipe econômica do atual governo e do próximo que virá, além das reformas da Previdência e Tributária.


Velloso reconhece as dificuldades dos estados, que estão sem capacidade de investimento em função da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) dos gastos, e da queda da arrecadação, que ainda vai demorar a normalizar. Ele também cita os ajustes da União, que fez vários cortes nos investimentos para 2018. Com isso, alerta para a urgência do investimento privado, mas com um custo de capital que seja compatível com o retorno das empresas.


Política industrial Fernando Figueiredo, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), considera que, do ponto de vista macroeconômico, a reforma tributária é mais importante para a indústria do que a da Previdência. Além das reformas, que devem encaminhar as soluções para o país continuar a crescer de forma sustentável, o governo precisa definir uma política industrial forte para que as empresas voltem a criar empregos de qualidade no Brasil. “Para que isso aconteça, é preciso uma indústria forte e uma política industrial que leve em conta os setores em que o Brasil tem vantagens competitivas, como é o caso da indústria química”, sugere o presidente da Abiquim.


Assim como seu colega da Fiesp, ele defende uma simplificação no sistema tributário que reduza, pelo menos, o custo para cumprir as obrigações impostas pelo Fisco. Figueiredo também defende a diminuição dos custos do gás, que chega a ser 30% mais caro que o insumo concorrente, a energia elétrica brasileira, “a mais cara do mundo”. Enquanto o governo não se mexer, o setor continuará sofrendo.


Entrevista/Flávio Castelo Branco - gerente-executivo da CNI

É preciso reduzir o custo do capital

Flávio Castelo Branco, gerente-executivo da Unidade de Política Econômica da Confederação Nacional da Indústria (CNI) defende a diminuição da burocracia, inclusive para estimular respostas mais positivas das empresas  no que se refere ao investimento


O que a indústria espera de 2018?

O que esperamos é a continuidade da recuperação que começou em 2017; um crescimento com mais intensidade, com respostas mais homogêneas não só da indústria, mas também de outros setores. Mas, principalmente, uma resposta mais positiva do investimento.

Nesse aspecto, tudo indica que vai ser complicado, já que o governo está com dificuldades para voltar a investir...

Falo de investimento privado. Com certeza, o investimento público será bastante limitado pelas condições fiscais dos principais agentes públicos. Ainda que com alta ociosidade na indústria, é sempre necessário que as empresas se atualizem para atender mercados cada vez mais competitivos.

Mas o cenário melhorou...

Sim, o custo de capital caiu, porque taxas de juros menores viabilizam isso. Trata-se de um fator positivo. Em um ambiente de mais previsibilidade, as empresas começam a tomar decisões um pouco mais ousadas.


As eleições podem atrapalhar o processo de crescimento e de retomada do investimento?

Sim, as eleições podem tornar o cenário mais nebuloso. Ainda não está muito claro quais serão os participantes do quadro eleitoral. Nesse ponto, temos um ambiente bem fragmentado, ao contrário do que ocorreu em outras eleições. A verdade é que as pessoas querem estabilidade e estão cansadas de crise.


Qual deve ser o papel dos empresários nas eleições?

Os empresários são parte de uma sociedade que está cansada de problemas e querem um candidato que viabilize a retomada do crescimento. Acho que o empresário estará comprometido com uma candidatura de centro, que apoie as reformas.

Quais são as principais demandas dos empresários da indústria?

Além das grandes reformas, defendemos uma agenda centrada na competitividade. Essa agenda passa pela redução de burocracia e da melhoria do ambiente de negócios. É preciso formatar uma política industrial que estimule o investimento privado e não repetir experiências negativas do passado. Há necessidade de um custo de capital mais baixo, com a dinamização dos financiamentos, porque o setor público não tem condições de investir.


Bola de cristal

As expectativas da indústria para 2018

2,6% - PIB  

3% - PIB da Indústria 

11,8% - Desemprego 

4,4% - Inflação 

6,75% - Taxa de juros 

2,12% - Superávit primário 

3,2% - Investimentos 

Fonte: CNI/Fiesp (jornal Estado de Minas)