Florestas que crescem em áreas desmatadas são importantes para a biodiversidade e o carbono

As florestas secundárias, aquelas que crescem em áreas anteriormente desmatadas, são fundamentais para a conservação da biodiversidade e do carbono na Amazônia. É o que diz o mais recente estudo da Rede Amazônia Sutentável (RAS). O trabalho avaliou áreas de capoeira, como são chamadas as florestas secundárias, na Amazônia Oriental, e mostrou o papel ecológico que desempenham nas mudanças climáticas.




11/10/2018 - As florestas secundárias, aquelas que crescem em áreas anteriormente desmatadas, são fundamentais para a conservação da biodiversidade e do carbono na Amazônia.


É o que diz o mais recente estudo da Rede Amazônia Sutentável (RAS), publicado na revista internacional Global Change Biology.


O trabalho avaliou áreas de capoeira, como são chamadas as florestas secundárias, na Amazônia Oriental, e mostrou o papel ecológico que desempenham frente às mudanças climáticas.


Após 40 anos de recuperação natural, as florestas secundárias ainda apresentam uma variedade baixa de espécies de animais e plantas quando comparadas às florestas primárias bem conservadas.


Por outro lado, são de vital importância para a conservação ambiental.


“Descobrimos que o carbono e a biodiversidade das florestas secundárias recuperaram mais de 80% dos níveis encontrados em florestas primárias não perturbadas”, diz o principal autor do estudo, Gareth Lennox, da Universidade de Lancaster, no Reino Unido.


O trabalho foi realizado por uma equipe internacional de cientistas da Europa, Brasil e Austrália, que mediu o carbono e pesquisou mais de 1.600 espécies de plantas, aves e besouros em 59 florestas secundárias em regeneração natural e 30 florestas primárias não perturbadas na Amazônia Oriental.


Os sítios de estudo estão localizados em duas regiões do Pará, nos municípios de Santarém, região oeste do estado, e Paragominas, no nordeste paraense.


As áreas analisadas correspondem a capoeiras jovens (de até dez anos), intermediárias (de 11 a 20 anos) e antigas (a partir de 20 anos). Para a recuperação do carbono e da biodiversidade nessas áreas, o tempo do desmatamento (ou estágio) é um fator-chave.


Quanto mais antiga a capoeira, mais a riqueza de espécies de aves, besouros e plantas tende a se aproximar da floresta primária.


“Esse é, sem dúvida, um resultado muito positivo para a mitigação das mudanças climáticas e para a conservação da biodiversidade. Mas, ainda assim, as florestas secundárias não podem substituir as primárias, que devem continuar sendo uma prioridade dos esforços de conservação”, alerta o cientista.


Outros fatores também determinam a recuperação da vegetação secundária, como o contexto da paisagem.


“Isso significa que, se existem áreas de floresta primária na região, elas contribuem para a recuperação da biodiversidade e do carbono nas capoeiras”, explica Joice Ferreira, pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental e coautora do artigo.


“As áreas desse estudo nos mostraram um cenário bastante positivo, pois estão localizadas em regiões onde há mais de 50% da cobertura vegetal primária. Por outro lado, estamos fazendo estudos em outras regiões do estado, nas quais há apenas resquícios de floresta primária, e o cenário pode ser mais preocupante”, revela a cientista da Embrapa.


A estrutura da floresta e a topografia são fatores também analisados pelos especialistas.


O aumento da biomassa, por exemplo, que está relacionada à estrutura da floresta, é o que determina a recuperação de carbono nas capoeiras e, consequentemente, exerce forte influência sobre a riqueza de diversidade de aves e besouros.


“Quanto mais encorpada a floresta, mais carbono e mais animais ela abrigará”, completa Lennox.

 

Pesquisa orienta ações importantes
 

O artigo “Second rate or a second chance? Assessing biomass and biodiversity recovery in regenerating Amazonian forests” (Segunda taxa ou segunda chance?


A avaliação da recuperação da biomassa e da biodiversidade na regeneração de florestas na Amazônia) confirma o papel das florestas secundárias para cumprir as políticas de conservação ambiental no País.


“O Brasil fez compromissos ousados de restauração florestal”, afirma Joice Ferreira.


“Por meio do desafio de Bonn e da Iniciativa 20 x 20, o País se comprometeu a restaurar mais 120 mil km2 de floresta até 2030. Nossos estudos mostram que a regeneração natural oferece serviços ecológicos importantes e sabemos que ela apresenta custos expressivamente mais baixos que a restauração ativa com plantios”, destaca.


No Pará, por exemplo, está em vigor a Instrução Normativa no 8, de 2015, a chamada “Lei das Capoeiras”, que regulamenta a supressão de vegetação secundária no estado.


Essa instrução, elaborada com base nas evidências científicas da equipe do artigo, estabelece, por meio de sua idade e quantidade de biomassa, se uma capoeira pode ou não pode ser desmatada.


“Esse é um exemplo claro de como o nosso trabalho orienta a tomada de decisão no poder público”, afirma Ferreira.


Os resultados já são mensuráveis: nos últimos 30 anos a área da Amazônia brasileira ocupada por florestas secundárias cresceu de menos de 30 mil km2 para mais de 170 mil km2, mais que o dobro do tamanho da floresta.


“Mas ainda há uma considerável incerteza sobre se as florestas secundárias podem atender a padrões ecológicos mínimos e se a regeneração natural ou plantio ativo é a melhor estratégia de restauração”, alerta Toby Gardner, do Instituto Ambiental de Estocolmo (SEI), da Suécia, coautor do artigo.


Ele ressalta ainda a importância das iniciativas internacionais, como a Convenção sobre Diversidade Biológica e REDD +, que buscam proteger e aumentar a biodiversidade tropical e os estoques de carbono, em parte, por meio da regeneração florestal.


É certo que biodiversidade e carbono caminham lado a lado nos processos de recuperação de florestas secundárias.


E essa constatação da pesquisa é fundamental para a tomada de decisão do poder público.


“Florestas secundárias na Amazônia podem, portanto, apresentar um cenário em que todos ganham, no qual investimentos em conservação podem aliviar a mudança climática e proteger espécies tropicais ao mesmo tempo”, finaliza o co-autor do estudo Jos Barlow, cientista na Universidade de Lancaster.


Fonte: Embrapa


Fonte: Celulose Online